Domingo, Fevereiro 12, 2012

12/02/12

Recomeçar: que coisa estranha! 
Reaprender: coisa mais estranha ainda! 
"Reacostumar": o que é isso?! 
Dar mais uma chance à mim mesma: há quanto tempo tenho precisado?
Quando se encontra algo de verdade é que se percebe que nem tudo que aconteceu, e que parecia ser uma verdade absoluta, realmente significava alguma coisa.

Venho querendo dizer muitas coisas... e também querendo mostrar muitas outras. Sem mais delongas, acho que Paulo Mendes Campos pode fazê-lo melhor que eu:

"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba." (O Amor Acaba - Crônicas Líricas e Existenciais - Editora Civilização Brasileira)

Terça-feira, Janeiro 10, 2012

"Saudade", essa relíquia da língua portuguesa.


Que saudade.
Que saudade de quando eu escrevia.
Que saudade de quando eu ainda tinha coração para escrever.
Sabe, escrever não é ato voluntário, desses que podemos nos por à mesa e simplesmente começar a rabiscar o papel. Escrever é involuntário, vem de dentro... se duvidar, do coração.
Tão involuntário quanto respirar, quanto fazer o coração bater, ou o sangue circular. Tão involuntário quanto um acidente; tão involuntário quanto um amor à primeira vista.
Há tempos - algumas semanas, pra dizer a verdade - sinto uma vontade grande de falar. De colocar no papel o que eu sinto, de dizer tudo que eu tenho pra dizer. E o que sai? Ah, um bando de palavras sem sentido! Bonitas, organizadas... mas tão vazias quanto um balão.
Cheguei a pensar - erroneamente, é claro - que a minha aptidão para redações ou textos mais formais pudessem me ajudar de alguma forma, dar algum contexto, ou "puxar" uma  inspiração de algum lugar... Balela! Racionalidade não serve pra essas horas. Serve, no máximo, pra corrigir um erro de português aqui ou ali.

Mas voltando ao assunto: que saudade que eu sinto!

Dizem que saudade é o sentimento que vive nos peitos vazios e nas cabeças que se preocupam com tudo. Dizem que saudade é uma lembrança de algo que passou e a esperança remota de que aquilo se repita.
Eu digo que saudade é o que explica esse caos cá dentro. É o que explica essa vontade de esquentar o peito mais uma vez, de pensar como antes; de estar "aberta a novas vidas dentro duma só".
É o sentimento que explica o porquê eu não escrevo mais. Ou porquê eu ouço as mesmas músicas e não sinto mais as mesmas coisas. É o termo da língua portuguesa - única e exclusivamente dela - que traduz o porquê calo quando penso.

A tenho da ignorância, da bobeira, dos momentos de alegria. Tenho saudade da cegueira, do calor... daquela vontade de jogar-se dum penhasco a cada dia. Como dizia Nietzsche: "Você ama o desejo, não o desejado".

Sábado, Outubro 29, 2011

Ausência de luz solar.

O que parece forte e inabalável à luz solar, com o cair da noite se torna frágil e fraco. A noite não passa de uma cortina escura que, ao mesmo tempo que nos separa da plateia, nos deixa à vontade para agir naturalmente nos bastidores.  É como se o pôr-do-sol fosse a chave que abre a porta dos sentimentos e que também prende a razão numa cela. Como se a noite fosse a verdade, que espera que a beleza sair de campo e se mostra integral, nua, crua e, às vezes, não muito bela.

Segunda-feira, Outubro 24, 2011

Sobre simplicidade e gotas de chuva.


Milhas e milhas a frente. Um curva à direita, outra à esquerda. Um grande caminho aparece. E tu o percorres. Calma e silenciosamente. Sem pensar n'outra coisa, a não ser o que buscas.

Começam as gotas. Tu te apressas. E como se tudo fosse acabar em um segundo, tu corres.  Sem pensar, sem saber. Tu corres em busca da felicidade. 

Pra que, me diga? O que te impede de verdes que ela já chegou? O que te impede de verdes que ela sempre esteve ali? O pior cego é o que vê somente o que os olhos enxergam.

Molha-te. Vive. Sente esta chuva. Delicia-te com o tato. Vê que estais vivo. Percebe-te.

Sê, apenas sê.

Sábado, Outubro 01, 2011

Sobre direitos e deveres.


De um lado do vidro, uns brincam com aparelhos eletrônicos de última geração  recém ganhos dos pais, gozando de plena saúde e felicidade, sempre reclamando dos pequenos desprazeres de sua vida "infeliz" e "chata". Do outro, na mesma faixa etária, pequenos mal vestidos fazem malabares e vendem chiclete em frente aos carros para ganhar, quem sabe, dinheiro para comer. Eis a situação lastimável em que se encontra o Brasil.
O direito à alimentação, moradia, cuidado, o direito à saúde e, primordialmente, o direito à vida, nem sempre são respeitados nesse país, apesar de garantidos em constituição. Nos padrões da realidade atual, é muito fácil encontrar morte, fome, falta de abrigo e de saúde, antes de qualquer outra coisa pelas ruas das grandes metrópoles.
Nada mais que leiga, a população julga os moleques que vivem na rua como se todos fossem criminosos, malfeitores. É aí que se enganam. Nesse caso, aplica-se o que Rousseau dizia: o homem nasce bom, mas é corrompido pela sociedade. Grande parte da criminalidade praticada por crianças e adolescentes de baixa renda certamente é por falta de opção.
O governo, no seu papel de protetor, é falho. De que adianta um estatuto que garante direitos e mais direitos se, na hora de aplicar, não o faz corretamente? Se o Estado cumprisse seu dever primeiro, o de fazer valer os direitos do povo, certamente não encontraria-se pequenos agindo fora da lei, muito menos enchendo as filas de hospital por causa de problemas de saúde que poderiam ser facilmente evitados.
Mesmo sendo grave, o problema ainda é passível de solução: uma população melhor instruída, por exemplo, seria algo que ajudaria no combate aos maus tratos com adolescentes e crianças. A educação, fator importantíssimo para a formação de caráter de futuros pais e educadores, não é tratada com a devida importância. Nem a nação, nem o Estado dá o valor adequado, quando esta poderia ser a linha de separação entre uma mãe dedicada e uma mãe negligente. Na realidade, o Brasil precisa mesmo é de uma revolução. Urgentemente.

Terça-feira, Setembro 27, 2011

Filosofia: amor à sabedoria.

Certa feita, conversando com um amigo, cheguei à uma conclusão muito interessante sobre o modo que me sinto com relação à escrita.
Disse à ele: "Engraçado. O que eu escrevo está estritamente relacionado ao que leio. Veja meu blog: no início, lia Paulo Coelho e, assim como o Mago, tentava ser simples e mística ao mesmo tempo. Algum tempo depois, ao conhecer a poesia de Drummond e Manuel Bandeira, o amor e a melancolia igualmente tomaram conta desta página. Mais tarde, porém, encantada no realismo Machadiano e nas críticas de Goethe e Dostoiévski, posso notar um amadurecimento enorme e, até mesmo, um desdém pelos sentimentos... É como se vivesse de fases."
Meu amigo, curioso, pediu: "E agora, o que lê?". Eu respondi: "Leio Nietzsche."
Mais uma vez, ele pede: "E o que escreve?". Respondi, então: "Não escrevo."
E de certo modo, é isso que acontece. A literatura em si é um banho de inspiração... um mergulho profundo na própria mente, uma viagem. Mas a filosofia... ah, a filosofia! Esta  leva para caminhos tão novos e insanos, tão nunca imaginados, que a possibilidade de expôr em palavras o que se revela diante dos olhos é nula.
É como se fosse um passeio tão vivo e vibrante que se torna impossível parar um tempo e, sensatamente, descrevê-lo.

Domingo, Agosto 14, 2011

Gênios serão sempre gênios.

"Andando" internet à dentro, achei um trecho de Goethe sobre um assunto que já falei aqui no blog (mais precisamente, aqui), que é a efemeridade de nossas vidas e da falta que o fim de nossa existência causaria. Cada vez que leio estes parágrafos, minha certeza é aumentada: gênios serão sempre gênios, atemporais.

"Veja o que você agora representa nesta casa: tudo para eles! Seus amigos lhe têm consideração e estima, você dá a eles muitos momentos de alegria e supõe que seu coração não poderia viver sem eles. No entanto... se você partisse, se desaparecesse desse círculo, por quanto tempo sentiriam o vazio que a sua ausência lhe causaria? Por quanto tempo?..."
Ah! o homem é tão efêmero que, mesmo onde está verdadeiramente seguro de sua existência, no único lugar em que sua presença produz uma impressão real- na memória e no coração dos amigos - mesmo ali ele vai apagar-se e desaparecer, e logo!" (Johann von Goethe)